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Mesmo com aumento da letalidade policial, PMs receberam quase R$ 440 milhões em bônus, segundo dados oficiais do governo

Alexandre Pereira dos Santos de Oliveira foi morto desarmado. Guilherme Dias Santos Ferreira foi baleado na cabeça quando voltava do trabalho. Felipe Petta foi executado a tiros dentro de casa. Todas essas mortes foram cometidas pela Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) em 2025. Eles fazem parte das 834 mortes causadas pelas polícias de São Paulo no ano passado, o maior número desde 2019.
A PMESP foi a responsável por mais de 90% desses assassinatos e, mesmo assim, foi premiada pelo seu trabalho. Afinal, em 2026, já recebeu quase R$ 440 milhões em “bonificações por resultados”, de acordo com levantamento feito pelo nosso repórter Paulo Batistella com dados oficiais do governo paulista. É uma soma maior do que o valor já pago a todos os outros servidores do Estado juntos. E a meta do governo é chegar a R$ 600 milhões em premiações para policiais neste ano eleitoral.
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Quer ver a situação ficar ainda mais escandalosa? A PMESP tem hoje cerca de 80 mil dos 494 mil servidores que trabalham no estado. Se o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) tivesse repassado aos policiais militares um valor equivalente à sua representatividade no funcionalismo público (16,3% do total), eles teriam recebido R$ 665,9 milhões a menos — ou seja, menos da metade do que foi pago. Por outro lado, a pasta da Saúde, por exemplo, com 43 mil servidores, teria tido direito a R$ 180,3 milhões a mais.
E você conhece alguma empresa que define suas metas anuais depois do período em que elas teriam de ser cumpridas? A PM tem recebido mais esse privilégio, pois os objetivos de 2025 foram tornados públicos no Diário Oficial do Estado (DOE-SP) apenas em março de 2026. Ou seja: primeiro temos os resultados, e depois as metas. Como diria o dito popular: algo de errado não está certo, não te parece?
Além disso, as tais metas para que o bônus seja pago observam apenas números de ocorrências e de vítimas em casos de latrocínio, homicídio doloso, roubo de veículos e roubos em geral (exceto de bancos e cargas). O esclarecimento desses casos ou a reparação das vítimas não está entre os objetivos, embora eles também se apliquem para a Polícia Civil e Polícia Técnico-Científica. O que se incentiva é o policiamento ostensivo, e não a resolução de crimes ou a inteligência. O combate a outros crimes, como estupro, estelionato e tráfico de drogas, também está fora das metas.
Não importa o quanto a PM paulista matou. No governo de Tarcísio de Freitas, ela sempre foi premiada e elogiada pelo seu trabalho a custo de sangue. E isso é uma escolha, pois o secretário da pasta tem autonomia também para impor uma redução no valor do bônus caso haja aumento da letalidade policial. Essa decisão é feita por bimestre, pois a bonificação é paga com essa periodicidade. Entretanto, nem Guilherme Derrite, da Polícia Militar, nem Osvaldo Nico, da Polícia Civil, usaram este poder — eles são, respectivamente, o antigo e o atual chefe da pasta de Segurança Pública. Em governos anteriores, como o de Geraldo Alckmin e João Dória, esse redutor chegou a ser usado.
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Para que você tenha uma ideia, dos 14 bimestres nos quais Derrite foi secretário, 12 tiveram alta da letalidade, sem que os PMs perdessem valor algum do bônus por conta disso. Entre os seis bimestres de 2025, três deles tiveram aumento da letalidade policial no estado na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Mesmo dentro da pasta de Segurança Pública, nem a Polícia Civil nem a Polícia Técnico-Científica tiveram o mesmo tratamento. Enquanto a PM já recebeu bônus esse ano, as outras duas polícias ainda não receberam pagamento algum em 2026, o que pode sinalizar uma preferência específica em agradar uma carreira de servidores.
Os especialistas que já ouvimos na série de reportagens “Bônus do Tarcísio” apontam que o bônus não tem sido usado como incentivo à eficiência, mas como agrado a categorias de servidores mais alinhadas ao perfil do atual governo ou moeda de troca em caso de greves, como aconteceu com os servidores da Saúde e da Educação em 2025. De acordo com entidades sindicais de servidores, o uso político do bônus é feito desde sua criação, em 2008.
Além de não haver nenhuma intenção real de conter a violência policial em São Paulo, o governo Tarcísio parece ser, para os mais de 80 mil policiais militares, quase uma figura de um pai generoso que mima demais seus rebentos, independentemente de seu comportamento. Em 2026, o bolso do papai está mais cheio para seus filhos armados. Talvez seja coincidência que também seja o ano em que o governador disputará a reeleição. E ainda tem gente que afirma que Tarcísio de Freitas é moderado…
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Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo