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Incursão ocorreu próximo ao horário de saída de uma creche, o que gerou tensão entre moradores; um homem ficou ferido e foi levado ao hospital

Moradores da favela do Siri, em Florianópolis, vivem uma nova ação violenta na tarde desta segunda-feira (7/4), após uma operação da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) deixar ao menos uma pessoa morta e outra ferida. A ação ocorre dez dias após um adolescente de 17 anos ter sido morto após correr de uma viatura. Na ocasião, familiares denunciaram que ele foi executado pela polícia.

Era por volta das 17h quando moradores perceberam um drone sobrevoando a região das dunas do bairro Ingleses, no norte de Florianópolis. Pouco depois, segundo relatos, começaram os disparos.

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Um vídeo registra o momento em que policiais militares entram na comunidade em uma viatura, pela rua Ruth Pereira, única via de acesso ao local. Nas imagens, alguns agentes aparecem com o rosto coberto e portando armas longas, apontadas na direção de moradores que estão na via (veja acima).

Em entrevista à reportagem, uma moradora destacou que a ação ocorreu no horário de saída da creche NEIM Gentil Mathias da Silva, na Estrada Dom João Becker, esquina com a rua Ruth Pereira — única via de acesso à comunidade.

Segundo moradores, adultos e crianças estavam no trajeto de retorno quando os disparos começaram. Outro vídeo gravado por populares mostra uma mulher segurando a mão de uma criança, com uma mochila infantil nas costas.

A moradora também chamou atenção para o que considerou um fato incomum em ações policiais na região. Segundo ela, pouco depois da chegada das viaturas, três ambulâncias entraram na comunidade.

Ela afirma que, em muitos casos, moradores denunciam demora no socorro a pessoas baleadas. Na avaliação da moradora, a quantidade de disparos ouvidos e a rapidez no atendimento indicariam uma ação premeditada.

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O tenente-coronel Rafael Regis, comandante do 21º Batalhão da Polícia Militar — responsável pelo policiamento no norte da ilha — confirmou à Ponte que a operação deixou uma pessoa morta e outra ferida, encaminhada ao hospital. Segundo ele, também foram apreendidas duas armas e uma quantidade de drogas, ainda em levantamento.

Procurada para mais informações, a PMSC informou apenas que a ocorrência está em andamento e que detalhes serão divulgados posteriormente. Até o momento, não foram esclarecidos o que motivou a operação, se havia mandados judiciais em cumprimento nem as circunstâncias da ação.

Dez dias após morte de adolescente, ação da PM deixa um morto na favela do Siri
Em frame de vídeo, policiais militares apontam armas para moradores ao entrar na favela do Siri, no Norte de Florianópolis, em uma viatura | Foto: Reprodução

Moradores denunciam execução de adolescente

Dez dias antes, um adolescente de 17 anos foi morto na comunidade. Segundo moradores, ele estava desarmado e foi baleado após fugir de uma viatura, em um caso que testemunhas classificam como execução. O jovem havia relatado dois dias antes ter sido ameaçado por policiais.

A versão da PM foi de que houve confronto e que os agentes reagiram a uma “injusta agressão”, mas nenhum policial ficou ferido e não houve apreensão de drogas. Após os disparos, moradores relataram demora no socorro e foram impedidos de se aproximar do corpo, incluindo a mãe do adolescente, que só conseguiu reconhecê-lo por foto.

No mesmo fim de semana em que o adolescente da favela do Siri foi morto, a PMSC matou ao menos outras quatro pessoas no estado. O portal Desterro, que é parceiro da Ponte, mostrou que a letalidade policial em Santa Catarina tem crescido no governo Jorginho Mello (PL), responsável por extinguir o uso de câmeras corporais no estado: em 2025, houve um recorde de mortes em Florianópolis.

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Em meio a isso, conforme mostrou a Ponte, a comunidade do Siri tem sido alvo recorrente de abusos da PMSC. Entre 2022 e 2025, quatro jovens foram mortos por policiais na favela, em episódios que os moradores afirmam ter se tratado de execuções — a versão policial narrava supostos confrontos.

São comuns batidas policiais abusivas na favela do Siri, com agressões em revistas e invasões a casas sem mandados judiciais. Aos mais jovens, conforme moradores já relataram à Ponte, a PM costuma ordenar que desbloqueiem o próprio celular para que seja vasculhado.

Quem é mãe na comunidade relata ter medo de que os filhos saiam à noite ou até mesmo corram no meio da rua, pelo risco de serem vistos como suspeitos pela PM e acabarem mortos. Durante as incursões policiais a tiros, mesmo quem está abrigado fica em pânico, já que várias das casas do local são de madeira.

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A favela do Siri ainda convive com restrições de serviços básicos, como fornecimento de água e energia elétrica, por ser considerada uma ocupação irregular — a realidade ali destoa da vizinhança da região Norte de Florianópolis, que também abriga bairros de classe alta e média alta entremeados em áreas de preservação e vários pontos turísticos, como as praias de Jurerê Internacional e de Canasvieiras.

Em janeiro, conforme mostrou a Ponte, a comunidade do Siri foi sitiada por policiais para que a prefeitura, sob gestão Topázio Neto (Podemos), demolisse casas. Moradores realizaram um protesto na ocasião e, em razão disso, passaram a ser vítima de agressão e ameaça de policiais nos dias seguintes.

Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo