Evento na entrada da comunidade contou com exposição de fotos que reconta história do local, para marcar reivindicação por um espaço de memória. Moradores tiveram ainda atividades culturais e distribuição de presentes para crianças

Homem pendura grandes fotografias em um varal na favela do Moinho, em São Paulo. As imagens mostram moradores e cenas do território, incluindo um cartaz com a frase “Moinho resiste”, enquanto o chão ao redor está tomado por entulhos.
Exposição de fotos que reconta história do Moinho deve ser levada para outros lugares | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Famílias remanescentes da favela do Moinho, na região central de São Paulo, fizeram, no último sábado (13/12), uma confraternização na entrada da comunidade, onde foi montada uma exposição de fotos que reconta a história do local. A exibição marcou uma reivindicação dos moradores para que seja criado no território, prestes a ser desocupado após acolher famílias por mais de 30 anos, um espaço de memória.

A ideia é criar no local o Centro de Memória e Resistência da Favela do Moinho, o que já era reivindicado pela Associação de Moradores do Moinho junto às autoridades desde o início do processo de reassentamento e ganhou maior força agora. Até aqui o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) anunciou apenas que pretende instalar um parque e, eventualmente, uma estação de metrô no local caso obtenha a cessão dele — o terreno pertence atualmente à União, ente sob gestão Lula (PT).

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“É uma semente de um centro de memória. A ideia é levar isso [a exposição] para outros lugares também. E a gente vai fazer um site reunindo as principais informação da história do Moinho”, disse à Ponte o fotojornalista e documentarista Caio Castor, que montou a exibição e documenta a favela desde 2012.

Evento foi realizado na entrada da comunidade, debaixo de viaduto | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

CDHU passou a jogar entulho em local que receberia evento

Na ocasião do lançamento da exposição, as famílias do Moinho ainda tiveram um dia de atividades culturais e distribuição de presentes de Natal para as crianças. A princípio, o evento deveria ocorrer em uma quadra poliesportiva da comunidade, o chamado “campinho”. Dias antes, contudo, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), empresa sob gestão Tarcísio que opera a desocupação, passou a jogar entulho das demolições no espaço, o que, junto da chuva, inviabilizou o uso dele.

A Ponte questionou a CDHU sobre por qual razão despejou destroços na quadra mesmo com outros espaços na comunidade, mas não obteve retorno até esta publicação. Também perguntou à empresa se ela tem ciência da demanda dos moradores pelo centro de memória e se pretende atendê-la.

Famílias distribuíram presentes de Natal para crianças que ainda vivem na comunidade | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Moinho passa por violento processo de reassentamento

A favela do Moinho passa por um processo de reassentamento iniciado pela CDHU em setembro do ano passado. Os moradores começaram a deixar a favela em abril de 2025, pressionados pela violência policial no local. Naquele mesmo mês, tiveram início os protestos contra a remoção das famílias sem uma reparação. As manifestações de maior projeção ocorreram em maio, ocasião que a Polícia Militar paulista (PM-SP) montou um cerco à comunidade para apoiar a CDHU em demolições de casas.

Ainda permanecem no Moinho centenas de famílias, muitas delas de mãos atadas: elas ainda não têm para onde se mudar, ao mesmo tempo em que a CDHU tem feito da comunidade um espaço cada vez mais hostil. Conforme mostrou a Ponte, os destroços tornaram o local um aparente cenário de guerra.

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Localizada na região dos Campos Elísios, a favela do Moinho se espreme entre trilhos por onde passam trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), embaixo do Viaduto Engenheiro Orlando Murgel e na divisa com o bairro do Bom Retiro. A remoção dos moradores se insere no contexto da alegada revitalização da região central pelo governador: a comunidade está a menos de um quilômetro da Praça Princesa Isabel, para onde Tarcísio pretende levar parte da sede administrativa do governo.

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Tarcísio também atribui o reassentamento a um alegado combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa à qual supostamente a favela estaria submetida e que faria dela base para o tráfico de drogas na região chamada de Cracolândia — cena aberta de uso de drogas. A gestão estadual ainda alega que os moradores da comunidade vivem sob risco e em condições insalubres.

Fonte: Ponte.org