Imagens mostram agentes voluntários discutindo com morador; grupo criado pelo pelo prefeito Topazio Neto (PSD) já foi denunciado por atuação irregular contra pessoa em situação de rua

A atuação dos chamados Agentes de Segurança e Ordem Pública Comunitários, vinculados à Prefeitura de Florianópolis (SC) e apelidados por críticos de “ICE de Floripa”, voltou a gerar controvérsia após a circulação de um vídeo que mostra um comerciante sendo impedido de acessar sua residência na região central da cidade. 

O episódio ocorreu no último domingo (1º/3), na área conhecida como centro-leste, onde bares dividem espaço com residências. Nas imagens, três homens uniformizados e com identificação do programa Voluntários de Floripa discutem com o morador e tentam impedir a retirada de cones colocados na via. O comerciante afirma que mora no local e questiona a interdição. 

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No vídeo, não é possível identificar a presença da Guarda Municipal supervisionando a ação, como determina a legislação que regulamenta o programa. A Lei 11.498/2025 autoriza a prestação de serviço voluntário “em apoio” à Secretaria Municipal de Segurança e Ordem Pública. O decreto que regulamenta a atuação dos agentes comunitários estabelece que eles devem atuar sob supervisão de, no mínimo, um guarda municipal, agente da Defesa Civil ou fiscal municipal, a quem permanecem disciplinarmente vinculados. 

Nem a lei nem o decreto atribuem aos voluntários poder de polícia próprio ou competência autônoma para restringir a circulação de pessoas ou exercer controle de trânsito. A prefeitura de Florianópolis disse em nota que os voluntários estavam acompanhados pela GCM (veja nota completa abaixo).

O comerciante Jefferson Rodrigo de Souza, de 39 anos, afirma que estava chegando em casa com a esposa e o filho de seis anos quando se depararam com cones bloqueando a rua. “Quando tentei remover o cone para entrar na minha casa, um dos voluntários veio berrando, filmando e disse que eu não poderia passar, independentemente de quem eu fosse”, contou.

Jefferson relata que tentou dialogar e até acionou a Guarda Municipal, mas sentiu que a abordagem foi desproporcional. “Eles vieram, chamaram a guarda, vieram quatro viaturas, mas ninguém se identificava direito. Eu só queria poder chegar na minha casa com minha família. Foi um momento de estresse, e ninguém explicou nada claramente.”

Ele conta ter respeitado as orientações da Guarda Municipal, mas criticou a postura dos voluntários. “Não estava fazendo vandalismo, só queria acessar minha casa. Fiquei tentando explicar, mas ninguém quis ouvir.”

Agente do programa Voluntários de Floripa discute com comerciante que tenta acessar a própria casa em rua bloqueada na região central de Florianópolis | Foto: Reprodução

Programa de voluntários é alvo de críticas e questionamentos no MP

A criação do programa de voluntários foi aprovada na Câmara Municipal de Florianópolis sob o argumento de reforçar a fiscalização durante a temporada de verão, especialmente em praias e eventos. A justificativa oficial era suprir a insuficiência do efetivo da Guarda Municipal para atividades de apoio, como fiscalização de comércio irregular e cumprimento de normas de sossego.

O caso foi encaminhado ao Ministério Público do Estado de Santa Catarina (MP-SC) pelo vereador Leonel Camasão (PSOL-SC), que já havia provocado a Promotoria em episódio anterior envolvendo a abordagem de uma pessoa em situação de rua. O MP-SC chegou a marcar uma reunião com o prefeito Topazio Neto (PSD-SC) após o caso ganhar projeção nacional.

Segundo Camasão, o vídeo foi enviado diretamente pelo comerciante. “Ele é dono de um bar e também mora ali. No fim de semana há grande circulação de pessoas e a Guarda Municipal organiza o fluxo para evitar acidentes. Até aí, tudo bem. O problema é que os voluntários passaram a agir como força de segurança ostensiva”, afirma.

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Camasão, que votou contra o projeto, afirma que a legislação é “ampla e genérica” quanto às atribuições. “Não há delimitação clara de responsabilidades. Na prática, eles estão fazendo de tudo”, diz.

Durante o carnaval, segundo ele, voluntários foram designados para revistar isopores de ambulantes, verificando se os vendedores comercializavam apenas marcas patrocinadoras do evento. Para o vereador, episódios como esse indicam ampliação das funções inicialmente previstas.

Voluntários podem receber até R$ 250 por turno 

O decreto municipal estabelece ainda que os voluntários devem cumprir um código de conduta específico, atuar conforme escalas definidas pela Secretaria e devem seguir a coordenação formal do programa. O texto fixa valores de ressarcimento por turno, que variam entre R$ 125 e R$ 250, conforme a carga horária.

Para o vereador, o problema não é apenas administrativo, mas estrutural. Ele defende que o programa carece de mecanismos mais transparentes de controle institucional e delimitação clara de atribuições.

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A prefeitura de Florianópolis nega irregularidades e, em declarações públicas, o prefeito Topazio Neto afirmou que os voluntários não exercem função de policiamento. 

Em suas redes sociais, o prefeito publicou um vídeo em defesa do programa de voluntários. Na gravação, ele classifica as críticas ao grupo como “lacração” e afirma que uma “turma extremista” estaria afastada da realidade.

O que dizem as autoridades 

A Ponte questionou a Secretaria Municipal de Segurança e Ordem Pública (SMSOP) sobre ação dos voluntários. Em nota, a SMSOP diz que os voluntários que aparecem em frente ao Terminal Cidade de Florianópolis estavam acompanhados de agentes da Guarda Municipal e trabalhavam para garantir o respeito ao bloqueio estabelecido com cones no local.

A SMSOP reforça que todos os voluntários comprovaram formação específica em cursos de vigilância e passaram por capacitações da Academia da Guarda Municipal. Os participantes são avaliados periodicamente para garantir o bom funcionamento das equipes, com verificação de critérios como comprometimento com escalas, postura compatível com a atividade pública e colaboração com a equipe. O caso passará por investigação interna para identificar possíveis inadequações ao programa.

O Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC) foi procurado para informar se instaurou procedimento a partir da denúncia encaminhada pelo vereador. Até a publicação da matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.

Leia a nota da prefeitura na íntegra

A Secretaria Municipal de Segurança e Ordem Pública (SMSOP) esclarece que os voluntários que aparecem em frente ao Terminal Cidade de Florianópolis estavam acompanhados de agentes da Guarda Municipal e trabalhavam para garantir o respeito ao bloqueio estabelecido com cones no local.

A SMSOP reforça que todos os voluntários comprovaram formação específica em cursos de vigilância e passaram por capacitações da Academia da Guarda Municipal. Os participantes são avaliados periodicamente para garantir o bom funcionamento das equipes, com verificação de critérios como o comprometimento com as escalas assumidas, postura compatível com a atividade pública desempenhada, colaboração com a equipe, etc. O caso passará por investigação interna para identificar possíveis inadequações ao programa.

Fonte: Ponte.org