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SSP-SP não responde se soldado Matheus Almeida Rodrigues pode ter sido atingido por disparo acidental ou mesmo por ação de outro policial. Além do agente de 28 anos, outras três pessoas foram mortas na ocorrência em Sorocaba (SP)
Um policial militar foi morto na madrugada do último sábado (11/4) em Sorocaba, no interior de São Paulo, em um caso registrado, a princípio, como “homicídio” e “morte decorrente de intervenção policial”. O secretário da Segurança Pública paulista, Osvaldo Nico, chegou a divulgar nas redes sociais que a vítima, o soldado Matheus Almeida Rodrigues, de 28 anos, “foi morto no confronto contra o crime”.
Um vídeo da ocorrência mostra, no entanto, que o soldado foi atingido um minuto após o fim de disparos feitos por outros policiais contra quatro suspeitos de assalto. Três dos suspeitos morreram, e o quarto foi preso em flagrante. É possível, portanto, que Matheus tenha sido atingido por um disparo acidental ou por ação de um colega de farda, após o encerramento dos disparos.
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O que mostram os vídeos da ocorrência
O vídeo obtido pela Ponte, que também já circula nas redes sociais, foi gravado por uma câmera de segurança na Rua André Rodrigues Benavides, no bairro Parque Campolim, onde Matheus foi morto. A reportagem teve acesso ainda a outra filmagem, feita por um morador.
As imagens mostram, a princípio, os quatro suspeitos entrando em um carro prata — dois ficam no banco de trás e os outros à frente. Eles haviam acabado de roubar uma farmácia, de onde levaram dinheiro e canetas emagrecedoras, após ameaçarem funcionários com uma arma de fogo.
O motorista tenta manobrar o veículo para fugir na direção oposta. É quando surgem duas viaturas e duas motocicletas da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), que bloqueiam a via: os policiais descem dos veículos e passam a atirar contra os suspeitos.
O motorista chega a abrir a porta do carro, mas cai de bruços logo em seguida, aparentemente baleado e morto. A porta traseira do lado direito também é aberta: é possível ver que um dos assaltantes desce e logo cai no chão, também aparentemente ferido, enquanto os policiais seguem atirando para o fundo da rua, como se outro suspeito corresse naquela direção.
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A situação é contida à 1h50min50s da madrugada. Vinte segundos depois, chegam mais três viaturas ao local, quando não há mais disparos. Matheus desce de um desses veículos e caminha pela calçada até se aproximar do corpo de um dos assaltantes, o motorista. Próximo a ele, há outros três policiais.
Um dos agentes se agacha e parece revistar o corpo do assaltante caído. Nesse momento, um segundo policial corre para trás de uma viatura, como se visse uma ameaça iminente. O terceiro sinaliza com as mãos para que Matheus se afaste. Logo em seguida, o soldado é atingido com um tiro na cabeça, à 1h51min49s, quase um minuto depois, portanto, de os disparos terem sido encerrados.

Vídeos confrontam alegação de PMs
Nos vídeos, não é possível ver os assaltantes armados ou atirando em momento algum. No boletim de ocorrência do caso, ao qual a Ponte teve acesso, consta que “os autores [do assalto] entraram em confronto com a Polícia Militar, a qual revidou e matou três dos elementos que praticaram o crime”.
O documento aponta ainda não haver clareza, ao menos em um primeiro momento, sobre de onde partiu o disparo que atingiu Matheus, se dos assaltantes ou de um dos policiais, descrevendo apenas que “os autores, segundo os policiais, teriam atirado contra a guarnição, vindo um policial a ser baleado e morto”.
No B.O., também consta que os policiais militares apreenderam com os assaltantes uma arma de fogo falsa e dois revólveres calibre .38 com numeração raspada, que teriam sido usados para efetuar sete disparos.
Especialistas levantam hipótese de tiro acidental
A Ponte pediu a dois especialistas que analisassem os vídeos. O perito criminal Bruno Lazzari, presidente do Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo (Sinpcresp), afirma que, no início dos disparos, parece haver uma falha dos policiais ao progredirem na cena: em determinado momento, alguns agentes chegam a estar em direções opostas, o que os colocava na linha de tiro uns dos outros.
O perito avalia que o tiro que atingiu Matheus pode ter vindo da região em que está o corpo de um dos assaltantes, o motorista baleado. Uma hipótese é de que esse suspeito teria uma arma de fogo em mãos, que teria disparado acidentalmente na ocasião em que o PM tenta pegá-la.
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Para Bruno, pode ter faltado cuidado ao policial que revistava o assaltante. “O que ocorre muitas vezes é que, quando um criminoso leva um tiro e morre, a arma pode estar na mão dele, às vezes com o dedo preso no gatilho. Se você vai lá e puxa essa arma sem muito cuidado, pode ter um disparo acidental.”
Para ele, essa hipótese só poderá ser comprovada, no entanto, a partir de um exame de confronto balístico, para identificar a trajetória do disparo e analisar o projétil que atingiu Matheus.
O outro especialista ouvido pela Ponte foi o coronel reformado da PMESP José Vicente da Silva Filho. Ele diz não descartar a hipótese de que o tiro tenha partido da arma de um policial, mas pondera que isso só poderá ser esclarecido por uma investigação. De todo modo, o oficial aposentado afirma que a morte de Matheus por si só já indica que houve alguma falha. “Que aconteceu falha, aconteceu, porque quando o policial falha, morre gente. Ou morre inocente, ou morre o pobre policial”, afirma.
Para José Vicente, o caso também reforça a necessidade do uso das câmeras corporais para proteção dos próprios agentes. “Não dá mais para abrir disso, até porque isso é usado para treinamento depois, é usado como evidência também”, diz. “O treinamento de abordagem, e essa foi uma situação típica de abordagem, precisa ser exaustivamente repetido, decorado, até haver memória muscular da ação.”
SSP-SP diz exames periciais foram solicitados
Após ter sido baleado, Matheus foi imediatamente socorrido por colegas policiais, que o retiraram do local. Os outros três suspeitos baleados foram mantidos na cena dos disparos.
À Ponte, a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) lamentou a morte de Matheus. A pasta comunicou ainda que a Corregedoria da Polícia Militar e a Polícia Civil investigam o caso, e que foram solicitados exames periciais ao Instituto de Criminalística (IC) e ao Instituto Médico Legal (IML), submetidos à Polícia Técnico-Científica.
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Matheus havia entrado na PMESP em 2019. Desde o ano passado, ele atuava em Sorocaba, lotado na Força Tática do 55º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM/I). Ele recebeu homenagens de colegas de farda e de familiares. A Ponte ainda tenta contato com a família dele.
Leia a íntegra do que diz a SSP-SP
A SSP lamenta a morte do soldado Matheus Almeida Rodrigues, de 28 anos, após confronto com criminosos na madrugada deste sábado (11), durante assalto a uma farmácia, na Avenida Carlos Comitre, no bairro Vila Marques, em Sorocaba. Durante o confronto, três criminosos, ainda não identificados, também morreram. Um quarto suspeito, de 19 anos, foi preso em flagrante e reconhecido pelas vítimas. O homem permaneceu detido à disposição da Justiça. O grupo estava em um veículo que havia sido roubado na cidade de Franco da Rocha, na região metropolitana, no começo deste mês. A autoridade policial solicitou exames periciais ao Instituto de Criminalística (IC) e ao Instituto Médico Legal (IML). O caso foi registrado como roubo a estabelecimento comercial, receptação de veículo, localização/apreensão de veículo e morte decorrente de intervenção policial. Um Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado para apurar as circunstâncias da ocorrência que também é investigada pela Polícia Civil. O policial havia iniciado a carreira na corporação em 2019 e atuava na cidade de Sorocaba desde o ano passado.
Correção
- A ocorrência envolvendo a morte de Matheus foi registrada como “homicídio” e “morte decorrente de intervenção policial”, e não como “homicídio decorrente de oposição à intervenção policial”. A reportagem foi atualizada às 11h10 de 15 de abril de 2026.
Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo