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Estado teve três mulheres vítimas de morte decorrente de intervenção policial em um mesmo mês, algo sem precedentes desde 2013. Gestão Tarcísio teve alta da letalidade policial contra mulheres e concentra 39% dos casos já registrados

Fevereiro é o mês com mais mulheres mortas pelas polícias de SP em ao menos 14 anos
Policiais militares durante atividade coletiva em São Paulo. Estado registrou aumento da letalidade policial, incluindo casos que vitimaram mulheres em fevereiro | Foto: Celso Silva/Governo do Estado de SP

As polícias do estado de São Paulo mataram três mulheres em fevereiro deste ano em ocorrências registradas como mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP), quando há, inicialmente, a alegação de um suposto confronto ou reação a uma injusta agressão. Trata-se do mês de maior letalidade policial contra mulheres em ao menos 14 anos.

O cenário foi identificado pela Ponte a partir de dados divulgados ao final do último mês pela própria Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP). A pasta é chefiada pelo secretário Osvaldo Nico, que é delegado de carreira, e está submetida ao governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), no qual houve uma disparada da letalidade policial contra mulheres.

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Na série histórica divulgada pela SSP-SP, de janeiro de 2013 ao último mês de fevereiro, consta que ao menos 43 mulheres já foram mortas pelas polícias no estado — o número pode ser maior, já que há outras 58 ocorrências nas quais não consta registro do gênero da vítima.

Especificamente de 2023 para cá, foram registrados 17 desses casos que vitimaram mulheres. Ou seja, o governo Tarcísio concentrou praticamente quatro de cada dez casos (39% do total) — na maior parte desse período, até novembro do ano passado, a SSP-SP foi chefiada pelo deputado federal em exercício e PM reformado Guilherme Derrite (PP).

A Ponte questionou a SSP-SP sobre ao que se deve o aumento da letalidade policial contra mulheres e se a pasta adota alguma política orientada para gênero de modo a coibir especificamente esses casos.

Em resposta (leia a íntegra ao final da reportagem), órgão afirmou que orienta a atuação policial com treinamento contínuo e uso progressivo da força, de modo a preservar vida. “As circunstâncias de cada caso são analisadas de forma individualizada, com base em elementos técnicos e periciais, não sendo possível estabelecer generalizações a partir de recortes específicos”, comunicou ainda.

Ana Laura, Jayane e Karina: as vítimas de fevereiro

Ao todo, foram 53 mortes cometidas pelas polícias no estado em fevereiro de 2026. A maior parte delas (50) vitimou homens, um padrão que se repete ao longo dos anos. Ainda assim, desde 2013 — período sobre o qual a SSP-SP disponibiliza dados —, nenhum mês havia registrado mais do que dois óbitos de mulheres, o que havia ocorrido em sete ocasiões.

O primeiro dos casos do mês mais letal contra mulheres ocorreu na madrugada do dia 2. Na ocasião, a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) matou uma mulher de 20 anos no pequeno município de Guaiçara, a 440 quilômetros da capital paulista. O nome da vítima é Ana Laura Pelarigo.

Horas antes, Laura havia ido à Polícia Civil relatar uma agressão a facadas que sofreu da cunhada em meio a uma discussão. Da delegacia, a vítima voltou à casa da familiar para confrontá-la, quando um vizinho acionou a PMESP. Policiais militares presentes na ocasião relataram que, em aparente surto, a vítima portava uma faca em ameaça à cunhada e a eles próprios.

Conforme repercutiu a imprensa local, os agentes relataram em um boletim de ocorrência que teriam feito uso de uma arma de choque para conter Laura, o que não teria sido o bastante. Um dos PMs atirou então no pescoço da vítima, que morreu antes da chegada do socorro. Não foi feito uso de outros dispositivos menos letais, como spray de pimenta.

A família entende que o desfecho poderia ter sido diferente. “Não tinha necessidade dessa abordagem. Hoje em dia, os policiais precisam dessa preparação [para lidar com pessoas em surto], porque senão isso vai ser recorrente, não só com mulheres, mas com outras pessoas que tenham problemas de saúde mental”, diz, à Ponte, Geovana Neves, que é irmã de criação de Laura.

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“As pessoas pensam algo como ‘ela é nervosa, queria agredir os outros’. Mas não é isso. Existe um contexto por trás, uma vida. A gente conhecia ela para além disso. Ela era uma mãe presente, trabalhava, tinha acabado de comprar uma moto e uma casa, era guerreira, batalhadora. Foi um grande erro, e esse policial [que atirou] deveria pagar, e não ficar nas ruas como se nada tivesse acontecido.”

O segundo caso de fevereiro envolvendo uma mulher ocorreu em Limeira, outro município no interior de São Paulo, na manhã do dia 25. A vítima é Jayane Marcielly Silva Oliveira, 24. À imprensa local, a PMESP alegou ter sido acionada em um momento em que Jayane sofria um surto psicótico.

Dois policiais foram então a uma casa em que Jayane estava, ocasião em que ela estaria com uma faca e teria passado a agredir um cadeirante de 77 anos. Foi quando, ainda conforme a PMESP divulgou à imprensa local, os agentes teriam tentado contê-la com uma arma de choque, antes de terem dado dois tiros contra a vítima. A morte da jovem foi confirmada por socorristas dentro da residência.

Já o terceiro caso ocorreu na madrugada do dia 28 de fevereiro. A vítima é a farmacêutica Karina Aparecida Ribeiro de Souza, 38. Na ocasião, ela trabalhava em uma farmácia no bairro de Santana, na zona norte da cidade São Paulo, quando dois homens anunciaram um assalto.

Um policial civil que estava no local, de folga e à paisana, passou a atirar contra os assaltantes, que conseguiram fugir. Karina foi atingida e morreu ainda no estabelecimento.

Policiais protagonizam outras mortes violentas contra mulheres

Também em fevereiro deste ano, a violência contra mulheres pelas armas das polícias veio à tona com o caso da soldado Gisele Alves Santana. Ela foi encontrada com um disparo na cabeça no apartamento em que vivia, no Brás, região central de São Paulo, no dia 18 daquele mês.

A hipótese inicial era de suicídio, mas, posteriormente, o então marido dela, o tenente-coronel da PMESP Geraldo Leite Rosa Neto, passou a ser considerado suspeito de feminicídio contra Gisele. É investigada ainda a participação de três policiais que teriam ido ao apartamento limpá-lo após o crime.

Esse caso, no entanto, não entrou nas estatísticas recém-divulgadas pela SSP, uma vez que não foi registrado como morte decorrente de intervenção policial.

Um outro caso mais recente, este, sim, registrado como MDIP, é o de Thawanna da Silva Salmázio, 31. Ela foi morta após ser baleada no abdômen por uma policial militar na madrugada de sexta-feira (3/4), em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo.

Essa ocorrência só deverá aparecer na base da dados da SSP-SP, no entanto, no fim de maio deste ano, uma vez que a pasta só consolida as ocorrências de morte decorrente de intervenção policial ao final do mês seguinte ao de divulgação.

Comparação com homicídios indica uso abusivo da força policial

Conforme já mostrou a Ponte, a gestão Tarcísio também tem tido recordes negativos de letalidade policial se levados em conta outros recortes. O ano passado, por exemplo, foi o que teve o maior número de mortes cometidas pelas polícias dos últimos seis. Além disso, foi um ano com um índice recorde de óbitos em cidades do interior do estado.

Se levadas em conta todas as mortes de fevereiro deste ano, e não só as de mulheres, houve uma leve queda da letalidade policial em relação ao mesmo mês de 2025, quando houve 54 casos.

Ainda assim, há uma indicação de uso abusivo da força policial se comparada a letalidade policial com o número de homicídios dolosos ocorridos em fevereiro de 2026, uma das formas que a literatura especializada em segurança pública utiliza para dimensionar a violência policial.

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Estudos do sociólogo Ignácio Cano consideram que a proporção razoável é de até 10% de mortes cometidas pelas polícias em relação ao total de homicídios, enquanto o pesquisador Paul Chevigny sugere que índices maiores de 7% seriam considerados abusivos.

Em fevereiro deste ano, 191 pessoas foram vítimas de homicídios dolosos. Se somadas essas ocorrências às MDIP do mesmo mês, as forças de segurança protagonizaram 22% das mortes violentas no estado.

O que dizem a SSP-SP e o MPSP

A Ponte também questionou a SSP-SP se houve esclarecimento e eventual responsabilização dos envolvidos nos casos de Ana Paula, Jayane e Karina. Em resposta, a pasta comunicou que as investigações ainda seguem em andamento.

“No âmbito da Delegacia Seccional de Lins, o inquérito policial tramita na Central de Polícia Judiciária (CPJ), assim como o ocorrido em Limeira, cuja apuração tramita pela Delegacia de Investigações Gerais da cidade. Já o caso ocorrido na zona norte da capital é conduzido sob sigilo pelo Cerco da 4ª Delegacia Seccional Norte, com acompanhamento da Corregedoria da Instituição”, escreveu.

“Nosoutros dois casos, com envolvimento de policiais militares, foram instaurados Inquéritos Policiais Militares (IPM), que se encontram em fase de instrução pelas autoridades competentes”, acrescentou.

APonteainda pediu uma manifestação do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), cujo rol de atribuições constitucionais inclui o controle externo das polícias. Em resposta, o órgão afirmou que “envida todos os esforços, por meio do Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da AtividadePolicial(GAESP) e dos promotores que têm atribuição neste campo, no sentido de apurar os casos envolvendo mortes de mulheres, bem como em todos os outros”.

Leia a nota da SSP-SP na íntegra

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informa que todas as ocorrências classificadas como morte decorrente de intervenção policial (MDIP) são rigorosamente investigadas, com acompanhamento dos órgãos de controle, incluindo o Ministério Público e as corregedorias das instituições envolvidas.

As circunstâncias de cada caso são analisadas de forma individualizada, com base em elementos técnicos e periciais, não sendo possível estabelecer generalizações a partir de recortes específicos. A atuação policial é pautada por protocolos operacionais, treinamento contínuo e uso progressivo da força, sempre com o objetivo de preservar vidas. A Pasta mantém políticas permanentes de capacitação e aperfeiçoamento dos agentes, alinhadas às normas nacionais e internacionais de direitos humanos.

Em relação aos casos mencionados, as investigações seguem em andamento. No âmbito da Delegacia Seccional de Lins, o inquérito policial tramita na Central de Polícia Judiciária (CPJ), assim como o ocorrido em Limeira, cuja apuração tramita pela Delegacia de Investigações Gerais da cidade. Já o caso ocorrido na zona norte da capital é conduzido sob sigilo pelo Cerco da 4ª Delegacia Seccional Norte, com acompanhamento da Corregedoria da Instituição.

Nos outros dois casos, com envolvimento de policiais militares, foram instaurados Inquéritos Policiais Militares (IPM), que se encontram em fase de instrução pelas autoridades competentes. A SSP reforça que diligências continuam em andamento para o completo esclarecimento dos fatos e esclarece que, até o momento, nenhum dos policiais militares envolvidos foi afastado do serviço operacional.

Leia a nota do MPSP na íntegra

O MPSP informa que a instituição envida todos os esforços, por meio do Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da AtividadePolicial(GAESP) e dos promotores que têm atribuição neste campo, no sentido de apurar os casos envolvendo mortes de mulheres, bem como em todos os outros. Além disso, o GAESP possui procedimento específico de acompanhamento da legalidade, suas causas, e quais os mecanismos utilizados pelo estado para diminuição dos índices.

Texto originalmente publicado em Ponte Jornalismo